Categoria: Artigos
Data: 05/04/2026

Nesta semana, estive em contato com uma obra que me acompanhou de forma incômoda e persistente. O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, apresenta uma narrativa inquietante sobre os últimos dias de Meursault — um homem aparentemente comum, mas profundamente marcado por uma estranha satisfação em uma existência desprovida de propósito e sem qualquer esperança para o porvir.

Meursault não choca pelos excessos, mas pela ausência deles. Ele trabalha, come, dorme, vai ao cinema, enterra sua mãe, banha-se no mar e observa o mundo ao seu redor com algo próximo a um prazer ordinário — mas faz tudo isso sem afeto, sem inquietação moral diante do mal e sem qualquer desejo por significado. E, em um mundo cada vez mais acostumado à superficialidade e à indiferença, esse homem, que não finge emoções, não se submete a normas e vive apenas o imediato, não parece tão distante quanto gostaríamos de admitir.

Camus o apresenta como um homem livre. A Escritura, porém, descreve pessoas assim como insensíveis, de coração endurecido e consciência cauterizada (Ef 4.18-19; 1Tm 4.2). A ausência de sensibilidade moral não é virtude nem autenticidade, mas evidência de corrupção — de morte espiritual.

Partindo do existencialismo e do absurdismo, o autor ecoa ao longo da obra que a vida não possui sentido — e que isso deve ser aceito com serenidade. A Escritura, contudo, afirma o contrário: o absurdo não está no mundo criado por Deus, mas no homem que se recusa a confiar nEle. O mundo se torna vazio apenas para aqueles que rejeitam o Senhor; pois aqueles que vivem para a sua glória encontram propósito, valor e até mesmo alegria em meio à dor, à justiça e à realidade moral.

No clímax da narrativa, ao rejeitar a Deus, Meursault encarna aquilo que o apóstolo Paulo descreve em Romanos 1.21-22 e vemos que a indiferença espiritual não é neutralidade, mas rebelião. E, ainda que negue o certo e o errado, demonstrando desprezo pela lei escrita no coração (Rm 2.14-15), ele não escapa do juízo — sendo confrontado não apenas por não sentir, agir na hora errada e se omitir na certa, mas também pela ausência de arrependimento.

Se Meursault não chorou pela morte de sua mãe, não amou e não se arrependeu, Cristo — nosso Senhor — chorou por Lázaro (Jo 11.35), amou pecadores como nós e, sem culpa alguma, entregou-se pela nossa culpa. Enquanto o mundo sem Deus produz indiferença, o evangelho de Jesus Cristo produz um coração vivo e sensível.

A Bíblia sempre afirmou o homem sem afetos como alguém não livre, mas escravizado por um coração endurecido. Somente Cristo pode restaurar em nós a verdadeira sensibilidade: amar a Deus e ao próximo.

Feliz Páscoa!

Rev. André Dantas



Autor: André Dantas   |   Visualizações: 5 pessoas
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