Quando o extraordinário se torna comum, instala-se em nós uma perigosa ilusão de permanência — como se o bem recebido fosse garantido e até devido pelo restante da vida. E, para muitos, é apenas na ausência que o valor finalmente se revela. É no luto que passam a reconhecer o peso das dádivas divinas que o próprio Deus, em sua soberania, resolveu retirar.
O cristão maduro, porém, aprende a desfrutar com gratidão enquanto ainda possui, pois entende que a ingratidão é uma forma sutil e danosa de incredulidade. O Senhor não é apenas o doador de toda boa dádiva (Tg 1.17), mas também aquele que a toma (Jó 1.21), segundo a sua vontade perfeita e santa — e bendito seja o seu nome por isso.
Perceba o quanto você já está cercado de coisas que, um dia, poderá lamentar ter perdido. Você ainda se levanta da cama sem auxílio. Seus filhos e seu cônjuge ainda estão presentes, ou ao menos vêm visitá-lo com frequência. Você ainda tem uma igreja onde pode cultuar publicamente ao Senhor e irmãos com quem pode contar e servir. Já parou para pensar que consegue se locomover até o trabalho ou escola sem parecer um atum espremido em uma lata de conserva? Aliás, já pensou que até isso você ainda pode fazer com facilidade e felicidade? Até mesmo aquilo que hoje parece incômodo ainda é, na verdade, um sinal de graça.
O Senhor nos permite alegria nesta vida não como licença ao hedonismo, mas como expressão de reconhecimento da sua soberania, pois, sem Ele, nem mesmo o prazer é possível (Ec 2.24–25; 3.12–14). Deus governa tanto o dar quanto o alegrar, e o faz de modo que possamos desfrutar sem culpa e sem ansiedade (Ec 5.20; 9.7–9). O que Ele requer de nós é um coração grato, mesmo diante da porção que nos foi designada — e a falta dessa gratidão revela um coração obscurecido (Rm 1.21).
Compreender isso nos livra de idolatrar o presente, de viver dominados pelo medo de perder tudo ou de tentar segurar as bênçãos como se dependessem do nosso esforço. O equilíbrio é simples e profundo: Deus dá, e eu desfruto; Deus tira, e eu continuo confiando.
Mas como viver isso de forma prática?
1. Valorize as pessoas antes do luto. Seja intencional em suas palavras, gestos e presença — não apenas com aqueles por quem você tem mais afeição.
2. Sirva enquanto há oportunidade. Não adie sua obediência ao Senhor esperando condições ideais (férias, aposentadoria, ganhar na loteria) ou marcos pessoais (concurso, casamento, filhos, casa, etc).
3. Agradeça pelas rotinas simples. Em suas orações, reconheça a alegria de poder andar até o banheiro, comer um bom arroz com feijão, trabalhar, ter recursos para aquela reforma pequena em casa e desfrutar da comunhão num culto de quinta-feira.
4. Cultive uma consciência diária da graça comum. Observe a bondade de Deus na criação e como Ele sustenta todas as coisas e todos os povos.
Por fim, lembre-se: Cristo é a maior dádiva que já recebemos. Ele é a única que jamais nos será tirada. Quando todas as outras coisas se forem — e elas irão — o cristão permanece grato, pois não foi separado de Cristo.
Não espere a perda para aprender a agradecer. Desfrute o bem de hoje sem se distrair das misericórdias presentes. Olhe para este momento da sua vida como um dia repleto das bênçãos de Deus. Talvez, no futuro, você se lembre com saudade dos dias de hoje — por isso, aprenda a vivê-los com gratidão agora.
Em Cristo,
Rev. André Dantas