O luto não é uma experiência linear, uma vez que o vivemos em diferentes intensidades ao longo desta vida. No entanto, uma coisa insiste em permanecer igual: a expectativa pessoal e exterior que retornemos a rotina quase que imediatamente, estejamos prontos ou não para ela. É como se existisse uma norma social implícita e de extremo peso que nos ordenasse a permanecer quietos e manter a dor privada após alguns instantes dela se tornar presente.
E, veja bem, essa não é uma defesa romântica da tristeza causada pela morte de alguém, de um relacionamento, de um emprego, de uma parte do corpo, do título de um campeonato, de um diagnóstico terminal ou o que mais venha te causar luto. É mais uma crítica a padronização mundial do silêncio na agonia desse luto versus o que a Bíblia nos fala sobre isso.
Cole Douglas Clayborn1, define luto como a resposta emocional à perda - algo que carregamos pelo resto da vida e que vem mais forte à superfície em momentos de ausência, e enlutamento como o processo pelo qual nossa relação com essa dor se transforma ao longo do tempo, onde passamos de sermos dominados por ela a reconhecê-la gradualmente e aprendemos a conviver com sua existência. Nesse processo, entre muitas experiências pesadas à saúde física, emocional e espiritual, o cérebro passa por uma amplificação de pânico, tristeza, ansiedade, saudade, confusão e incerteza do que vem a seguir.
Diante da tristeza de ver os altares ao Senhor derrubados e os profetas mortos de forma cruel à espada, Elias se viu sozinho, com medo da perseguição de Jezabel e, ao meu ver, enfrentou o luto desejando a morte (1 Rs 19). Mas, além disso tudo, é possível que tenha fugido da simpatia e atenção de algumas pessoas ao seu redor com o objetivo que se levantasse logo para oferecer a resistência final a rainha má. O deserto não foi apenas o local onde buscou o Senhor (v.4), mas onde também fugiu da sua dor, da expectativa que tinham sobre ele e onde encontrou o tempo certo para ser consolado (Mt 5.4).
Eu não sei o que tem te causado luto. Não sei há quanto tempo você tem sido atormentado pelo peso da ausência e do silêncio imposto para mostrar aos outros que está tudo bem. Apenas lembre-se que o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva aqueles de espírito oprimido (Sl 34.18). Quando o salmista diz que ainda que ele ande pelo vale da sombra da morte não temerá mal algum, é porque sabe que Deus está ao seu lado (Sl 23.4) e não tem pressa que corra depressa o seu luto, pois espera que descanse nEle pelo tempo que precisar (Sl 30.5; Ec 3.1,4).
Além disso, em tempo, lembre-se que Deus não apenas permite o choro, Ele também ordena que o povo de Deus acompanhe quem sofre (Rm 12.15). E disso tiramos duas lições:
1. Se você é aquele que exige que alguém se recomponha rapidamente, aprenda a sofrer com o próximo;
2. Se você é quem está sofrendo, saiba que pode sofrer em paz sozinho com Deus, mas também pode sofrer em paz e bem acompanhado — olhe para a Igreja de Cristo.
nEle,
Rev. André Dantas
1. https://coledouglasclaybourn.substack.com/p/the-cost-of-rushing-grief